rque sinto um calor perto das quatro da tarde. Algo sempre está me limitando. Eu aposto que você não sabe diferenciar as flores pelo cheiro, eu também não sei. O jardim de ontem era florido e ninguém lembrou. Nenhum de nós pensou em apostar quem conseguia acertar mais flores, nenhum de nós ao menos tentou cheirar alguma delas. O egoísmo sempre ocupa muito espaço e nisso a gente não repara. Eu sempre vejo as pessoas falarem sobre estrelas e eu mesma sempre falo delas, mas nenhum de nós repara que os prédios do nosso bairro disputam pra ver qual é mais alto. As ruas são cheias de placas e quando olhamos para cima, normalmente contamos quantos andares tem o maior prédio. Mas nós nunca contamos estrelas, nem conversamos com elas. Nós nunca nos preocupamos em marcar um passeio para ver o céu livre. A nossa rotina esmaga as estrelas, deixa o nosso céu carregado. Eu não conheço o meu vizinho, apesar de morar aqui há mais de anos. Eu o vejo passar perto do portão todos os dias, mas mesmo assim não o conheço. Porque conhecer não é cumprimentar com os olhos e assentir com a cabeça. E hoje em dia quase ninguém se conhece, quase ninguém se preocupa em ocupar um espaço consideravelmente grande na vida do outro. Ninguém se lembra de fazer a diferença com o melhor sorriso, com o melhor abraço. Quem se acha melhor contando as notas que leva no bolso, nunca se lembra de fechar os olhos e contar os amigos. Coitados de nós que não vemos que o simples da vida fica escondido para os olhos de quem quer ver. Que o bonito se espalhou pelo caminho e não no ato de chegar. A textura do mundo cabe na ponta dos dedos, mas nisso ninguém repara.”
— Brenda Viegas
— Brenda Viegas
Nenhum comentário:
Postar um comentário